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Sebastião Sanhudo (1851 – 1901)

Caricaturista notável. Autor e Editor de diversas publicações humorísticas. Fundador da Litografia Portuguesa.

Sebastião Sampaio de Sousa Sanhudo nasceu a 20 de fevereiro de 1851 na vila de Ponte de Lima, tendo por progenitores Inácio José de Sousa Sanhudo, Secretário da Administração do Concelho e sua mulher D. Maria José de Lima Sampaio. Foi batizado a 8 de março, tendo por padrinhos os 2os Condes de Bertiandos, cuja Casa possuía grandes benefícios fiscais e eclesiásticos, além de vastas propriedades agrícolas (cerca de 85% da área da atual freguesia)[1] que no período das colheitas davam trabalho a uma legião de pessoas: rendeiros, jornaleiros, criados, moços de lavoura, etc.

  • Retrato de Sebastião Sanhudo
    Retrato de Sebastião Sanhudo. Desenho a sanguínea não assinado, publicado em O Cosmorama – Almanach do Sorvete para 1902.

É num meio em que a parca urbanidade vivia paredes-meias com a vida campestre, que Sebastião Sanhudo vive a sua infância. Mas ainda muito jovem dirige-se para o Porto, seguindo os passos do seu irmão mais velho João Inácio da Cunha e Sousa, já então abastado negociante na cidade tripeira.

Aqui assenta praça como voluntário, acabando por ficar na secretaria do Quartel-General, provavelmente por influência do padrinho, que era Par do Reino e Oficial do Batalhão de Caçadores daquela cidade. Ainda militar matricula-se na Academia Portuense de Belas Artes, em 1873, onde chega a obter um louvor[2].

Em abril de 1877, com mais dois sócios[3], cria a ‘Litografia Portuguesa’ que rapidamente se tornou uma indústria conhecida e importante na cidade. A reputação de Sebastião Sanhudo como litógrafo confirma-se quando outros denominam a sua litografia como a “Litografia do Sanhudo”. Largas centenas de reproduções litográficas foram espalhadas por livros, calendários, anúncios, mapas e pela imprensa portuguesa, com um estilo realista mas crítico, irónico e fazendo uso dos meios e técnicas do seu tempo.

Em 1889 efetuou-se em Paris a Grande Exposição Universal. Neste certame, onde cada país procura dar visibilidade ao que de melhor se produzia nas diferentes áreas, obteve a Litografia Portuguesa uma menção honrosa[4]. A par do seu trabalho como litógrafo, Sebastião Sanhudo, por feitio, hostil à má disposição, ao mau humor, à antipatia, à impaciência e à ignorância, vai abraçar vários projetos, traçando o seu próprio espaço no jornalismo e humorismo caricatural do panorama nacional. Assim, temos Sebastião Sanhudo como ilustrador de “O Pae Paulino” desde o primeiro número saído em julho de 1877; como diretor e ilustrador do seu próprio jornal de tipologia humorística com caricaturas, “O Sorvete”, onde identificamos o autor como um dos precursores da Banda Desenhada no nosso País. Neste jornal, desenhos de pequenas dimensões, por vezes simplificados, dispõem-se em tiras, notando-se a preocupação em ‘fazer falar’ aqueles desenhos simples, mas com atitudes, expressões e movimentos.

  • Capas de quatro Almanaques publicados por Sebastião Sanhudo_1   Capas de quatro Almanaques publicados por Sebastião Sanhudo_2
  • Capas de quatro Almanaques publicados por Sebastião Sanhudo_3      Capas de quatro Almanaques publicados por Sebastião Sanhudo_4
    Capas de quatro Almanaques publicados por Sebastião Sanhudo – Almanach de Caricaturas Pae Paulino (1878); Procissão de Celebridades Portuenses – 1º volume (1884); Almanak do Sorvete para 1888; O Cosmorama – Almanach do Sorvete para 1902.

“O Sorvete” foi o periódico do género de maior longevidade no séc. XIX (nasceu a 9 de junho de 1878 e terminou em dezembro de 1900). Através dele e de forma incontornável, fica-se a conhecer profundamente o relato do quotidiano, do último quartel do séc. XIX português e de forma mais específica o sentir e o viver do norte do País, o que acabará por caracterizá-lo como um dos maiores representantes do humorismo nortenho.

  • Selo de Correio com uma autocaricatura de Sebastião Sanhudo
    Selo de Correio com uma autocaricatura de Sebastião Sanhudo, que integra a emissão Caricaturistas, promovida pelos CTT em 2005.

É notória a evolução do seu traço ao longo dos anos, registando-se um cuidado acrescido na elaboração dos rostos, que se tornam mais realistas do que caricaturais, principalmente no género feminino. À medida que a falta de liberdade de imprensa se fazia sentir, a caricatura ganha espaço, principalmente na abordagem de temas políticos. Isto reflete-se, quer n’ “O Sorvete”, quer n’ “O Piparotes”, outro periódico de Sanhudo que teve uma breve existência em 1889.

  • Primeiras páginas dos jornais humorísticos O Pae Paulino e O Sorvete_1 Primeiras páginas dos jornais humorísticos O Pae Paulino e O Sorvete_2
    Primeiras páginas dos jornais humorísticos O Pae Paulino (nº 10, de 1 de outubro de 1877) e O Sorvete (nº 1, de 9 de junho de 1878), ambos ilustrados por Sebastião Sanhudo.

Nestes jornais do Porto e lidos por todo o País[5], Sanhudo não esquece as estórias, os acontecimentos, a religiosidade profunda dos limarenses quando, por exemplo, desenha a importância dada pelo povo às ‘alminhas’ que aqui e ali acompanhavam as curvas da estrada entre os Arcos e Ponte de Lima até Viana, percurso sinuoso e difícil, sendo ‘repórter’ gráfico de alguns acidentes. Reconhece-se também quem eram os seus patrícios, os políticos e as figuras pitorescas daquela época em Ponte de Lima.

  • Etiquetas comerciais da Lithographia Portugueza
    Etiquetas comerciais da Lithographia Portugueza fundada em 1877, no Porto, por Sebastião Sanhudo e por ele próprio desenhadas em trompe l’oeil.

A praga da filoxera e as suas consequências não são votadas ao esquecimento por Sanhudo. Assim, em vários números, são referidos de forma gráfica os vinhedos mortos em Ponte de Lima, e o consequente abandono das terras que conduziram os pequenos viticultores à miséria e/ou à emigração.

  • Facetas distintas de Sebastião Sanhudo em quatro auto caricaturas._1    Facetas distintas de Sebastião Sanhudo em quatro auto caricaturas._2
  • Facetas distintas de Sebastião Sanhudo em quatro auto caricaturas._3   Facetas distintas de Sebastião Sanhudo em quatro auto caricaturas._4
    Facetas distintas de Sebastião Sanhudo em quatro auto caricaturas.8Facetas distintas de Sebastião Sanhudo em quatro auto caricaturas.

O que há também de inovador neste pontelimense é a diversidade do seu legado: de litógrafo passa pela arte do retrato – à época muito apreciado pelos seus contemporâneos e ainda hoje por críticos de arte, como é o caso de José Augusto França[6] – pelo seu humorismo gráfico espelhado nas diversas formas de literatura, que vão desde os imensos Almanaques em que colaborou e que expressam uma grande riqueza de conteúdo gráfico de que “O Cosmorama” é a ‘obra’ entre os Almanaques; aos “Álbuns de Caricaturas”, à colaboração prestada com ilustrações em inúmeras publicações como “Les Lusiades Travesties”; “A Corja”, de Leal da Câmara; o “Portugal Artístico, de Raspão” de Sá de Albergaria; e tantas outras que a falta de espaço não permite abordar.

  • Figuração de Ponte de Lima na paródia de Sebastião Sanhudo sobre a heráldica municipal
    Figuração de Ponte de Lima na paródia de Sebastião Sanhudo sobre a heráldica municipal (Brazões de Cidades e Villas de Portugal), publicada em O Cosmorama – Almanach do Sorvete para 1902.
  • Caricatura de Sebastião Sanhudo alusiva à história dos “Carecas de Faldejães”
    Caricatura de Sebastião Sanhudo alusiva à história dos “Carecas de Faldejães”, com que António Feijó celebrizou Ponte de Lima, publicada em Charitas (edição especial de O Phantasma, de Fevereiro de 1892), dirigida pelo seu amigo, também caricaturista, Alfredo Mâncio.

Mas o seu legado é também credor da sua riqueza de carácter, demonstrada na colaboração prestada em diversos números únicos ligados a comemorações, a tragédias e calamidades públicas, que deixaram à época famílias e populações portuguesas e mesmo estrangeiras na mais extrema miséria. Sebastião Sanhudo faleceu, em consequência de uma encefalite, a 17 de agosto de 1901, mas não caiu no esquecimento. Em março de 1938, na Secção Retrospetiva do Salão da Sociedade de Belas Artes em Lisboa, estiveram expostos trabalhos seus, ao lado de outros nomes como o de Manuel Macedo, Rafael Bordalo Pinheiro, Nogueira da Silva e tantos mais, honrando assim o legado de uma obra ímpar na História da Caricatura Portuguesa. Em 2005, os CTT, numa homenagem aos caricaturistas portugueses de todos os tempos, editaram uma série de onze selos, contendo um deles uma autocaricatura de Sebastião Sanhudo.

  • Autocaricatura com que Sebastião Sanhudo
    Autocaricatura com que Sebastião Sanhudo anuncia em 1878 o primeiro número do seu jornal O Sorvete.
  • Assinatura_Sebastiao Sanhudo
    Assinatura de Sebastião Sanhudo

Isilda Maria Amorim Gomes


[1] Cf. PINA

[2] Academia Portuense de Belas Artes, Livro da Correspondência saída para o Governo, de 1865 a 31 de julho de 1874, fl. 138.

[3] O sócio capitalista era o seu irmão mais velho João Inácio da Cunha e Sousa, que vem a ser um dos fundadores da Litografia Nacional, que chega à década de 70 do séc. XX, nas mãos dos seus descendentes, e que mudará de nome (devido às circunstâncias de então) para Litografia Lusitana.

[4] Cf. AMORIM-GOMES, p. 33.

[5] Cf. AMORIM-GOMES.

[6] Cf. FRANÇA.