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Conselheiro António de Magalhães (1882 – 1961)

Visconde de Cortegaça. Magistrado. Escritor com uma forte relação sentimental com Ponte de Lima. Principal editor dos Almanaques de Ponte de Lima.

António de Magalhães Barros de Araújo Queiroz nasceu na Casa das Pereiras, na vila de Ponte de Lima, em 19 de março de 1882, filho primogénito do distinto jurisconsulto Dr. António de Magalhães Barros de Araújo Queiroz e de sua mulher D. Maria José de Abreu de Lima Pereira Coutinho. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra em 1906 e seguiu a carreira da Magistratura, que o chamou ao exercício de funções em muitas comarcas distantes, até atingir o topo como Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.

  • Retrato do Conselheiro António de Magalhães
    Retrato do Conselheiro António de Magalhães. Pintura a óleo sobre tela (Casa das Pereiras, Ponte de Lima).

Mas se a carreira profissional foi a matriz da sua vida ativa, o amor acrisolado por Ponte de Lima e pelos valores culturais desta sua terra natal foi o determinante da sua atividade, não poupando esforços para promover a sua imagem e o seu legado histórico. E soube fazê-lo com lucidez e inteligência, pondo ao serviço deste objetivo os rendimentos do seu património e as relações de amizade que ao longo da sua vida foi tecendo com os mais prestigiados nomes da Cultura portuguesa. Em 1907, o semanário limarense "O Commercio do Lima", por iniciativa do seu Diretor, o Padre António Luís Fernandes, levou a efeito a publicação do primeiro Almanaque da série que ficaria afamada com o nome de "Almanaque de Ponte de Lima"[1]. Ainda sob a sua direção foi editado um segundo número em 1908, mas em 1909 já os recursos financeiros do jornal não permitiam a reedição. Foi o Dr. António de Magalhães que decidiu suportar os custos e assumiu a Direção. E no ano seguinte, em 1910, porque a empresa de "O Commercio do Lima" continuasse sem meios[2], conseguiu financiamento para o quarto número (Dr. Luís da Cunha Nogueira), que saiu ainda sob a égide daquele semanário, mas desta vez dirigido pelo seu amigo Dr. Francisco Teixeira de Queiroz. A qualificada colaboração granjeou a esta iniciativa um imenso sucesso, tendo-se juntado aos mais eloquentes cultores da historiografia local, nomes prestigiados como Figueiredo da Guerra, Rocha Peixoto, Padre Cunha Brito, Félix Alves Pereira, Mendes dos Remédios... Mas não havia fundos para prosseguir a iniciativa nem a conjuntura política motivava o empenho e a participação.

  • Casa das Pereiras, em Ponte de Lima
    Casa das Pereiras, em Ponte de Lima. Fotografia de meados do séc. XX (Fot. - a.d.).
  • Grupo que Henrique Trindade Coelho intitulou “Os Amigos do Rio Lima”
    Grupo que Henrique Trindade Coelho intitulou “Os Amigos do Rio Lima”. Da esquerda para a direita – sentados: João Gomes de Abreu de Lima, Conde de Bertiandos e Francisco de Abreu Maia; em pé: António de Magalhães (Visconde de Cortegaça), Padre Araújo Calheiros, Conde de Aurora e António Ferreira. Fotografia tirada junto à Torre de Refoios de Lima, em 22 de novembro de 1922 (Fot. - F.M.).

Passaram doze anos de apagado fulgor para a cultura limiana e de novo o Dr. António de Magalhães surge em cena. A 22 de novembro de 1922 reúne à sombra da sua vetusta Torre de Refoios, seis amigos de três gerações, as mais categorizadas Figuras da Intelligentzia local. Formava-se, assim, o grupo que Henrique Trindade Coelho apelidaria "Os Amigos do Rio Lima" - o Conde de Bertiandos, João Gomes de Abreu de Lima, o Dr. Francisco de Abreu Maia, o Dr. António Ferreira, o Padre Araújo Calheiros, o Conde de Aurora e ele próprio, Dr. António de Magalhães[3]. Foi a mola vital do renascimento cultural de Ponte de Lima.

No ano seguinte, em 1923, o Dr. António de Magalhães retomou a iniciativa dos velhos Almanaques, com a colaboração de todos os seus amigos e convidou o Dr. Filinto de Morais para o dirigir, mas desavenças de última hora impuseram a sua substituição, assumindo ele próprio a direção. Em 1924 convidou o Dr. Júlio de Lemos e em 1927, já nos prenúncios do Estado Novo, o Conselheiro Pinto Osório. O seu último volume saiu dos prelos em 1933, sob a responsabilidade de Rodrigo Abreu. E só muitos anos mais tarde, em 1980, vinte anos após a sua morte, saiu o último Almanaque, este editado já pela Câmara Municipal de Ponte de Lima, sob a direção do Dr. António Matos Reis.

  • Capas de três obras do Dr. António de Magalhães _1  Capas de três obras do Dr. António de Magalhães _2  Capas de três obras do Dr. António de Magalhães _3
    Capas de três obras do Dr. António de Magalhães - Figuras Ilustres (1914), Um General contra um Juiz (1953) e Pró Ponte de Lima (1954-1959).

O Almanaque de Ponte de Lima foi, sem dúvida alguma, a referência cultural que mais prestigiou Ponte de Lima no séc. XX e este empreendimento, que se deve ao Dr. António de Magalhães, foi a génese de muitas outras iniciativas de grande e profícua expressão, que ainda hoje requintam a imagem desta terra. A paixão quasi chauvinista que o Dr. António de Magalhães nutria por Ponte de Lima está bem patente num verboso texto subscrito por Fernão Corte-Real em 1924[4] - "De António de Magalhães, o que eu diligencio acentuar, marcar bem, gritar até para que a sua amada Ponte de Lima o sinta e saiba de vez, é que nunca alguém o excedeu, porque não é possível excedê-lo, no seu animado, altíssimo, aceso amor por essa formosa vila onde nasceu - como se ela encerrasse para si toda a grandeza de uma Pátria! ... Para António de Magalhães não há rio mais belo que o rio de Ponte de Lima; panorama mais doce que o doce panorama de Ponte de Lima; e cantigas de lavadeiras tão alegres como as que animam, no Verão, os areais faiscantes do rio Lima. E não há poetas como os de lá - nem canções de árvores, de vento, de águas, como as das árvores, do vento, das águas que divinamente murmuram sobre a paz sem nuvens da sua maravilhosa terra! A sua terra! Oh! Como o seu grande nervosismo se excita ao falar-nos de Ponte de Lima e dos seus homens, ... A vaidade do seu coração sai consolada e comovida com a simpatia dos outros para a sua terra!".

Para além dos Almanaques de Ponte de Lima publicou trabalhos seus, merecendo destaque "Figuras Ilustres" (1914), "Um General contra um Juiz" (1953) e cinco folhetos ou brochuras intitulados "Pró Ponte de Lima", que alimentaram acesas polémicas entre 1954 e 1959. Atualizou e editou também dois antigos tratados genealógicos - "Um Documento Genealógicosobre os Abreus Coutinhos" (1921) e o "Nobiliário Alentém" (1955-1960) e foi um dos organizadores do "In Memoriam do Juiz Pinto Osório". O Dr. António de Magalhães foi Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, Membro do Instituto Histórico do Minho e Cidadão Honorário de Vieira do Minho. Viveu os últimos anos de vida na sua querida e solarenga Casa de Cortegaça, em Subportela (Viana do Castelo), que herdara de seu tio materno, o Visconde de Cortegaça, com a cláusula testamentária de que lhe sucedesse também no título, o que ele cumpriu sem lograr a competente ratificação. Aí faleceu a 19 de junho de 1961, solteiro e sem geração.

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    Capas das nove edições do Almanaque de Ponte de Lima, título prestigiadíssimo, cuja sobrevivência se deve ao Dr. António de Magalhães.

 

  • Assinatura_António de Magalhães
    Assinatura de António de Magalhães

João Gomes d’Abreu



[1] Já em 1891 se publicara um primeiro (e único) número do "Almanach do Lima", dedicado à memória do pai Dr. António de Magalhães, seu homónimo e um benquisto advogado, e que precedeu a publicação do jornal com o mesmo título ("O Lima"), iniciada no ano seguinte sob a batuta regeneradora de Miguel Roque dos Reis Lemos. António de Magalhães, já órfão de pai, fazia então nove anos de idade.

[2] A este descolamento do Dr. António de Magalhães, não deve ter sido estranha a posição política que o jornal assumiu logo a seguir à implantação da República, chegando a declarar no seu n.º 212, de 15 de outubro de 1910, que daí em diante era propriedade do Partido Republicano Conservador.

[3] Ficou célebre a caricatura verbal que associou a cada um destes Notáveis um dos sete pecados capitais - a soberba, a perguiça, a luxúria, a avareza, a gula, a inveja e a iria.

[4] CORTE-REAL, Fernão - "Dr. António de Magalhães", in Almanaque de Ponte de Lima, Ponte de Lima, 1924, p. 155.