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António Feijó (1859 - 1917)

Diplomata. Um dos maiores poetas do seu tempo.

António Joaquim de Castro Feijó nasceu na vila de Ponte de Lima em 1 de junho de 1859, na rua de Santo António[1]. Era filho de José Agostinho de Castro e Sousa Correia Feijó e de sua mulher D. Joana do Nascimento Malheiro Pereira de Lima e Sampaio.

Depois dos estudos preparatórios em Ponte de Lima e em Braga, em 1877 matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra, formação que concluiu em 1882. Terminado o curso, exerceu temporariamente a advocacia, mas depressa abandonou a profissão, para que não se sentia vocacionado, em favor da carreira diplomática. Em 1886, em concurso público, foi nomeado Cônsul, partindo para o Brasil, primeiro como Adido na Legação do Rio de Janeiro e depois como Adido de Portugal no Rio Grande do Sul, para onde parte a 5 de novembro. Em 1888, foi colocado no Consulado de Pernambuco. Em 1891, partiu para Estocolmo, “cidade boreal”, onde é colocado como Cônsul Geral e Encarregado de Negócios interino, juntamente com o Ministro de Portugal, Visconde de Sotomaior. Em 1900, foi nomeado Cônsul Geral e Encarregado de Negócios em Estocolmo e em Copenhaga, na Dinamarca. Em 1906, apresentou credenciais como Ministro Plenipotenciário junto da Corte da Noruega.

    • Retrato de António Feijó.
      Retrato de António Feijó. Pintura a óleo sobre tela, realizada por Columbano Bordalo Pinheiro em 1893 (Museu Nacional de Soares dos Reis – Porto [896 Pin CMP/MNSR])

Em 24 de setembro de 1900, casou com a bela sueca Maria Carmen Mercedes Joana Lewin, dezanove anos mais nova que ele, filha de pai sueco e de mãe equatoriana. A amada companheira da sua vida foi mulher de proverbial beleza e encantamento. Morreu em 1915, acontecimento que abalou profundamente o poeta. Do casamento ficaram dois filhos − António Nicolau e Joana Mercedes (Ninette).

Os problemas de saúde do poeta-diplomata, sobretudo os ataques de gota, agudizam-se com o abatimento profundo em que mergulha. António Feijó morreu a 20 de junho de 1917, com cinquenta e oito anos de idade. O seu funeral foi um acontecimento na capital sueca. Em 28 de junho do mesmo ano, na Academia Brasileira de Letras (onde o próprio Feijó fora admitido), o poeta Alberto de Oliveira pronuncia a conferência “António Feijó, o que morreu de amor”. Mais tarde, os seus restos mortais, juntamente com os de sua mulher, foram trasladados com honras militares, num navio da Armada Real Sueca, de Estocolmo para Lisboa. Com consideráveis ecos na imprensa nacional, um imponente cortejo fúnebre trouxe, em novembro de 1927, os restos mortais do casal para Ponte de Lima, em cujo cemitério repousam, à sombra da inscrição tumular: “O amor os juntou, nem a morte os separou”.

  • António Feijó, aos vinte e seis anos
    António Feijó, aos vinte e seis anos, quando era ainda estudante em Coimbra.

António Feijó tinha uma personalidade congenialmente efusiva e convivial. Nas repetidas viagens que fez a Portugal, o poeta-diplomata revia amigos, passando temporadas em Lisboa, na Casa de Vilar (Lousada) e em Ponte de Lima. Foi sempre um homem de carácter fidalgo, culto e distinto, espirituoso e expansivo. São conhecidos os testemunhos que realçam a lucidez irónica e a saudável alegria, verdadeiramente contagiantes, deste espírito alegre e folgazão. Ainda sobre este tópico da personalidade de Feijó, é bem elucidativo o retrato que dele traça o amigo íntimo Luís de Magalhães, no prefácio a “Sol de Inverno” – “O seu contacto dava alegria, dava saúde. Sob a sugestão do seu espírito parecia que tudo se animava e resplandecia, que a própria existência se tornava mais amável, mais apetecível. De toda a sua pessoa irradiava a ‘joie de vivre’ ”.

São inúmeros, aliás, os ditos graciosos e as situações anedóticas protagonizadas pelo poeta e diplomata limiano, homem divertido, de convívio desejado, repetidamente alcunhado de “opíparo Feijó”, por Guerra Junqueiro e pelos amigos. A figura do divertido estudante António Feijó não podia faltar no vasto quadro evocativo de Trindade Coelho, em “In Illo Tempore” (Estudantes, Lentes e Futricas), de 1902. Também são famosas as suas prodigalidades e paixões em matéria gastronómica, próprias de um requintado gourmet e de um homem apostado em fruir epicuristicamente os prazeres da mesa. Disso são prova as cartas ao irmão José, a Luís de Magalhães e as de D. Emília de Castro, afetuosa esposa de Eça de Queirós, sempre preocupada com a frágil saúde do marido, a qual chega a individualizar, na sua correspondência, o “temível” Feijó como responsável por desencaminhar os amigos íntimos para memoráveis e desmedidos repastos gastronómicos.

  • Retrato de António Feijó com 30 anos
    Retrato de António Feijó com 30 anos. Desenho a crayon de A. Silva sobre fotografia, publicado no jornal Charivari, nº 39, de 8 de junho de 1889.

No efervescente contexto histórico-cultural do último quartel do séc. XIX, a partir do ambiente coimbrão e de Lisboa, Feijó relacionou-se com os espíritos mais esclarecidos do seu tempo, dentro e fora da literatura − Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, António Cândido, Visconde de Pindela, Conde de Arnoso, Conde de Sabugosa, Luís de Magalhães, Manuel da Silva Gaio, João Penha, Luís de Castro Osório, Guerra Junqueiro, Jaime de Magalhães Lima, Trindade Coelho, Alberto de Oliveira, entre tantos outros. A nível regional, manteve relações próximas ou mesmo de amizade com o Padre Araújo Lima, João Gomes d’Abreu[2], o Conde de Bertiandos, Gaspar de Queiroz Ribeiro, o Conselheiro Vieira Lisboa, o Dr. António Inácio Pereira de Freitas, etc. Manteve assídua correspondência com alguns destes interlocutores, sendo exemplo eloquente a que envolve o Visconde de Pindela[3] e Luís de Magalhães[4], uma e outra recentemente publicadas.

António Feijó foi sobretudo um poeta, ora de alma romântica e de fundo lírico, ora de veia mais humorística e paródica. Desde os tempos de estudante, colaborou ativamente em variadíssimas publicações (jornais, revistas, álbuns, etc.), onde foi publicando sobretudo poemas, que mais tarde recolherá, seletivamente, nos seus livros de poesia. Com Luís de Magalhães funda em Coimbra a “Revista Científica e Literária” (1880-1881). A escrita poética acompanhou-o durante toda a vida profissional, incluindo as permanências no Brasil e na Escandinávia.

  • Primeira e última das sessenta páginas da célebre carta dos “Carecas de Faldejães”
    Primeira e última das sessenta páginas da célebre carta dos “Carecas de Faldejães”, que António Feijó escreveu em 11 de março de 1912 ao seu amigo João Gomes d’Abreu (ACO).
  • Retrato de António Feijó, com 50 anos
    Retrato de António Feijó, com 50 anos, com a farda de diplomata, incluindo uma curiosa saudação em verso, que enviou em 1909 ao seu amigo João Gomes d’Abreu (ACO)
  • Menu com as armas de António Feijó
    Menu com as armas de António Feijó (escudo partido de Feijó e Castro; elmo e timbre de Feijó) e por ele escrito para uma receção oferecida na Embaixada de Portugal em Estocolmo (ACO)

Da longa estadia no Norte da Europa datam sentidos versos onde o poeta expressa a nostalgia da pátria, com realce para a paisagem da sua Ribeira Lima, saudade da luz e do calor, das tradições e do encanto da sua distante terra natal, como num conhecido poema da “Ilha dos Amores” (1897), de manifesta tonalidade confessional, adotado por Ponte de Lima para seu Hino oficial:

“Nasci à beira do Rio Lima,
Rio saudoso, todo cristal;
Daí a angústia que me vitima,
Daí deriva todo o meu mal.

É que nas terras que tenho visto,
Por toda a parte por onde andei,
Nunca achei nada mais imprevisto,
Terra mais linda nunca encontrei.

São águas claras sempre cantando,
Verdes colinas, alvor de areia,
Brancas ermidas, fontes chorando
Na tremulina da lua cheia…

É funda a mágoa que me exaspera,
Negra a saudade que me devora…
Anos inteiros sem primavera,
Manhãs escuras sem luz de aurora!

Ó meus amigos, quando eu morrer
Levai meu corpo despedaçado,
Para que eu possa, já sem sofrer,
Dormir na Morte mais descansado.

Olhos d’Aquela que eu estremeço,
Se de tão longe pudésseis ver-me!
Olhos divinos que eu nunca esqueço,
Morro de frio, vinde aquecer-me…”

  • Capa da raríssima edição da Satyra Funambulesca
    Capa da raríssima edição da Satyra Funambulesca, publicada por António Feijó (sob o pseudónimo Fra Diavolo) em Ponte de Lima, em 1880.
  • Capa da primeira edição de Lyricas e Bucolicas (1884)
    Capa da primeira edição de Lyricas e Bucolicas (1884), um dos títulos de referência na obra literária de António Feijó.
  • Capa da primeira edição de Cancioneiro Chinez (1890)
    Capa da primeira edição de Cancioneiro Chinez (1890), outro dos títulos de referência na obra literária de António Feijó.

Como poeta, António Feijó publicou em vida várias obras, desde o início da década de 1880 até praticamente às vésperas da sua morte – “Transfigurações” (1882), que integra o longo poema ‘Sacerdos Magnus’ e logo após, “Líricas e Bucólicas” (1884), recolhendo a sua produção de 1876-1883, e a breve composição de “À Janela do Ocidente” (1885).

Ainda no Brasil, segue-se o apelo oriental com a publicação de “Cancioneiro Chinês” (1890, com 2ª ed. em 1903, revista e aumentada), com traduções muito criativas a partir do “Livre de Jade” [1867] de Judith Gauthier. Sobrevém a reafirmação do lirismo amoroso e nostálgico da “Ilha dos Amores. Auto do Meu Afeto, Alma Triste” (1897). A última obra editada em vida é “Bailatas” (1907), apreciável manifestação de humorismo e de paródia, sob o pseudónimo de Inácio de Abreu e Lima, primo do camiliano Calisto Elói...

  • Busto de António Feijó
    Busto de António Feijó, esculpido por Teixeira Lopes, no monumento que lhe foi consagrado na vila de Ponte de Lima, em 1938.

Postumamente, são publicados mais dois títulos, pela mão do amigo íntimo Luís de Magalhães. Em 1922, “Sol de Inverno. Últimos Versos” (1915), uma verdadeira obra-prima, síntese de um lirismo magoado e nostálgico, profundamente outonal e crepuscular, com textos prefaciais de Luís de Magalhães e de Alberto de Oliveira. Finalmente, sai a lume a sua derradeira obra, “Novas Bailatas” (1926), retomando os registos lírico e sobretudo jocoso e parodístico. Contudo, a atividade literária de Feijó não se circunscreveu à poesia, publicando outros trabalhos − “A Instrução Popular na Suécia, Relatório” (1897, com 2ª ed. em 1901); no domínio da tradução literária, “A Viagem de Pedro Afortunado (saga em 5 atos traduzida do original sueco com permissão do autor)”, do dramaturgo sueco Augusto Strindberg (1906); e ainda “Viagem em Portugal, 1798-1802”, de Carl Israel Ruders (1981, com prefácio e notas de Castelo Branco Chaves, reimpressão em 1997 e edição completa em dois volumes em 2002).

A considerável recensão crítica da obra de Feijó tem realçado, muito justamente, alguns traços que a singularizam no panorama da  literatura portuguesa, no complexo período de transição entre os dois séculos. Do ponto de vista estético, avulta o papel exercido por uma considerável conjugação de tendências finisseculares: do legado idealista e romântico-positivista à revitalização parnasiana; do simbolismo integrador e do decadentismo agónico e finissecular até às tendências saudosista e vitalista do neorromantismo, já nos alvores do modernismo.

  • Capa da primeira edição de Ilha dos Amores (1897)
    Capa da primeira edição de Ilha dos Amores (1897), um dos títulos de referência na obra literária de António Feijó.
  • Capa da primeira edição de Bailatas (1907)
    Capa da primeira edição de Bailatas (1907), uma das obras literárias de referência de António Feijó.
  • Capa da 1ª edição das Poesias Completas
    Capa da 1ª edição das Poesias Completas de António Feijó, publicada em 1940.

Em 1 de junho de 1938, é festivamente inaugurado um monumento à sua memória, em Ponte de Lima, numa avenida com o seu nome, contando com a presença da filha do poeta, que integra um busto do escultor Teixeira Lopes e um enquadramento do arquiteto Paulo Cunha.

E em 1940, é publicada pela Livraria Bertrand toda a obra do poeta em “Poesias Completas”, promovida pelos seus amigos e admiradores, com a supervisão de Afonso Lopes Vieira e o apoio da Câmara Municipal de Ponte de Lima, que logo justifica uma segunda edição. E no 1º de junho de 1959, realizam-se em Ponte de Lima as comemorações do centenário do seu nascimento, publicando a Câmara Municipal diversos trabalhos, designadamente um interessante catálogo intitulado “Comemorações do 1º Centenário do Nascimento do poeta António Feijó e Catálogo da Exposição Biblio-Iconográfica”.

  • Capas dos dois volumes da Obra Completa de António Feijó_1
    Capas dos dois volumes da Obra Completa de António Feijó, publicada em 2004 e 2005.
  • Retrato de António Feijó com quarenta anos.
    Retrato de António Feijó com quarenta anos.

Recentemente, em 2001, publicou-se o estudo de A. Campos Matos, ”O Mistério da Estrada de Ponte do Lima, António Feijó e Eça de Queiroz”; e em 2004, as Edições Caixotim reeditaram as “Poesias Completas”, acrescentando no ano seguinte as “Poesias Dispersas e Inéditas”, ambos os volumes organizados por J. Cândido Martins. Uma interessante demonstração da qualidade da obra poética de António Feijó é bem visível nos juízos que mereceu a outros poetas mais ou menos consagrados. A título de exemplo, António Nobre refere-se a Feijó como “impecável artista”; Antero de Quental, em registo epistolar, louva-lhe “uma mestria de forma verdadeiramente rara”; Alberto de Oliveira distingue-o como “poeta lírico no mais alto sentido”; Delfim Guimarães considera-o “artista primoroso”; e Eugénio de Castro celebra o poeta limiano no soneto “Amor e Glória”, tal como Teófilo Carneiro no soneto “O Regresso do Rouxinol”. Mais recentemente, Urbano Tavares Rodrigues considera António Feijó “o mais autêntico poeta da geração parnasiana de 80”; António Manuel Couto Viana cataloga-o como “grande poeta português”; e David Mourão-Ferreira aprecia-o como um “poeta de difícil filiação e de vasta paleta estética”. Exemplo da perfeição técnico-musical da arte poética de Feijó, fiquemos com o seu mais conhecido e citado poema, transcrito de “Líricas e Bucólicas”:

“Morreu. Deitada no caixão estreito,
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como num sonho virginal desfeito.

– Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
As mãos de neve erguidas sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria…

Tinha a cor das rainhas das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequenino esquife em que dormia…

Levou-a a Morte em sua garra adunca!
E eu nunca mais pude esquecê-la, nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria...”

  • Túmulos de António Feijó e de sua mulher D. Maria Carmen Mercedes Joana Lewin
    Túmulos de António Feijó e de sua mulher D. Maria Carmen Mercedes Joana Lewin, no Cemitério Municipal de Ponte de Lima.
  • Assinatura_António Feijó
    Assinatura de António Feijó

José Cândido de Oliveira Martins



[1] Este arruamento, que descia da rua do Pinheiro (actual rua General Norton de Matos), perpendicular a ela, até às traseiras da Igreja da Ordem Terceira e servia, primitivamente, o Convento de Santo António dos Capuchos, já não existe. Foi destruído no final do séc. XIX, para se constituir o que é hoje a ‘Villa Moraes’ e, por essa razão, foi demolida a casa onde nasceu o poeta António Feijó. A proximidade a que ficava da rua do Pinheiro tem suscitado alguma confusão, sendo esta artéria frequentemente atribuída como o local do seu nascimento (Nota do Coord.).

[2] QUEIRÓS, Francisco de – Cartas do Poeta António Feijó a João Gomes de Abreu de Lima, sep. da Revista Gil Vicente, Guimarães, 1961.

[3] MACHADO, João Afonso – Minhotos, Diplomatas e Amigos – A correspondência (1886-1916) entre o 2º Visconde de Pindela e António Feijó, DG edições, 2007.

[4] FEIJÓ, António – Cartas a Luís de Magalhães (2 vols), Lisboa, IN-CM, 2004 (edição org. por Rui Feijó).